Imperialismo e cultura: Notas para uma atualização do tema à luz do materialismo cultural

  • Autor
  • Fábio Palácio de Azevedo
  • Resumo
  • A invasão territorial da Venezuela pelos EUA e o sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro, foram o ponto culminante de uma série de eventos recentes que serviram como trombetas a anunciar: o conceito de imperialismo está de volta! Tantas vezes tido como anacrônico e obsoleto, ele é hoje reiterado não por clamores intelectuais abstratos, mas pela própria realidade política (BORGER, 2026; O'BRIEN, 2026). Não à toa, visões edulcoradas sobre “globalização” têm desmoronado como castelos de cartas nos últimos anos (FERNANDES, 2021). A crise mundial e o repique de tendências intervencionistas, xenófobas e neofascistas revelaram a crescente instabilidade sistêmica e a crise da chamada globalização neoliberal (CIRILLO & MONTEIRO, 2025). Os novos fenômenos mostraram, por tabela, a atualidade das teses de Lênin (1981a; 1981b) sobre o desenvolvimento desigual do capitalismo, fenômeno por trás da conflituosa divisão do mundo entre nações centrais e periféricas.

    O objetivo deste trabalho é oferecer uma visão atualizada sobre as relações entre imperialismo e cultura. Partimos da constatação de que o imperialismo tardio, sem colônias formais, mas ainda estribado em estruturas militaristas e coercitivas, necessita igualmente, como recurso para o exercício da hegemonia (GRAMSCI, 1977), de uma extensa rede de produção de consensos, que inclui programas e agências (PALÁCIO, 2025), além de empresas de mídia, tecnologias de comunicação e informação e expedientes científico-acadêmicos. Por meio dessa rede opera-se a chamada política cultural do imperialismo (IANNI, 1976).

    A fim de deslindar a exposição, começamos por definir o conceito de imperialismo com base na obra de Lênin (1981a), mostrando como essa conceituação determina o entendimento marxista sobre a chamada questão nacional (LÊNIN, 1985; AZEVEDO, 2020). Discutimos, ainda, a atualidade do conceito (AMIN, 2022; SMITH, 2022). Em seguida, delimitamos o conceito de cultura com base em Williams (2000), e expomos seu papel na reprodução das assimetrias da ordem global. Analisamos, então, os principais instrumentos da política cultural do imperialismo: a) programas e agências; b) indústria cultural; c) atividades técnico-científicas. À guisa de conclusão, recapitulamos pontos principais e explicitamos as contradições e limites do imperialismo.

    Do ponto de vista da abordagem teórico-metodológica, o trabalho se fundamenta nos pressupostos do materialismo cultural. Desenvolvida pioneiramente por Raymond Williams (1921-1988), essa perspectiva representa um refinamento do marxismo clássico na forma de conceber as relações entre economia, política e cultura. Como na tradição pregressa, também examina a esfera simbólica a partir de sua conexão com relações econômicas e de poder. Porém, avança ao conceber a cultura não como mero “reflexo” da produção material, mas como algo dotado de caráter constituinte, capaz de conferir forma concreta às predisposições do poder econômico e político. 

    Em tempos de capitalismo informacional (DANTAS, 2022), quando o colonialismo assume formas menos tangíveis (FAUSTINO & LIPPOLD, 2023), não é profícuo conceber a cultura como questão de segunda ordem em relação à economia, esta sim “material” (WILLIAMS, 1977; 1979; PALÁCIO, 2023). Como afirma Jessop (2010), as relações econômicas já não se viabilizam sem imaginários bem-sucedidos, e por isso operam ora materialmente, ora semioticamente.

  • Palavras-chave
  • Imperialismo; cultura; materialismo cultural
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 4 - Políticas Culturais e Economia Política da Cultura
Voltar Download
  • GT 1 - Políticas de Comunicação
  • GT 2 - Comunicação popular, alternativa e comunitária
  • GT 3 - Indústrias Midiáticas
  • GT 4 - Políticas Culturais e Economia Política da Cultura
  • GT 5 - Economia Política do Jornalismo
  • GT 6 - Teoria e Epistemologia da Economia Política da Comunicação
  • GT 7 - Estudos Críticos em Ciência da Informação
  • GT 8 - Estudos Críticos sobre identidade, gênero e raça
  • Sessões Especiais em "Comunicação e Extensão"

Comissão Organizadora

Sociedade EPTICC

Comissão Científica

Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)

Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)

Antônio José Lopes Alves (UFMG)

Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)

Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)

César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)

Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)

Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)

Fernando José Reis de Oliveira (UESC)

Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)

Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)

Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)

Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)

Lorena Tavares de Paula (UFMG)

Manoel Dourado Bastos (UEL)

Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)

Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)

Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)

Rozinaldo Antonio Miani (UEL)

Rodrigo Moreno Marques (UFMG)

Ruy Sardinha Lopes (USP)

Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)

Verlane Aragão Santos (UFS)